sábado, junho 14, 2003
Meu sobrinho.
Quero falar do meu sobrinho. Quero falar com o meu sobrinho. Na realidade eu gostaria que hoje já fosse julho e a gente pudesse marcar um cinema juntos.
Meu sobrinho é uma pessoa inteligente, culta e nem parece que tem a idade que tem. Parece ter 15 anos.
Sinto-me ao lado de Sócrates quando passeamos. Ele com suas perguntas difíceis, eu, uma seguidora fiel de suas respostas inteligíveis. Conversar com Ricardo é passar horas agradáveis. É deslizar sobre o tempo. Deslizar de meia simulando patinação pelos concretos de São Paulo.
Estar com esse menino de olhos grandes que parecem estar desnudando a pessoa, sorriso meigo, voz suave, é perder a noção da realidade e decretar o absurdo como a única forma plausível de se viver. E é realmente um absurdo, pois a minha melhor amiga não entende como eu posso chamar de sobrinho um rapaz tão bonito e ainda por cima deixá-lo me chamar de tia na frente de qualquer pessoa.
Às vezes suas fãs me cansam. Começam a me encher o saco e conseguem me deixar com raiva de uma pessoa tão doce. Mas a raiva é do davidnorth, não do Ricardo, pois eu não o vejo mais como há 3 anos atrás. As concepções mudaram. Difícil explicar, mas ele deixou de ser o duende verde que toma conta do pote de ouro no final do arco-íris. Deixou se ser uma luzinha azul no icq, um nome no messenger, o sobrinho do chat do cinema do Terra.
Talvez, Ricardo, das pessoas que eu conheci na net, tenha se tornado o único a conseguir me fazer ser eu mesma. Deixar de ser Nice, Niti, Luar, Zilda e tantos outros pseudônimos. Ao seu lado, posso deixar meus sonhos incontáveis deslizarem pela boca. Posso fazer com que meus pensamentos tornem-se palavras. Posso dar importância às pedrinhas coloridas, aos prédios altos, ao céu cinzento. Posso responder no ato a uma pergunta, decidir que quero alguma coisa e desistir dessa coisa cinco minutos depois, sem preocupar-me com o espanto, ou mesmo, com a frase: "Você foi capaz disso"?
Ricardo nos dá a impressão de que somos capazes de tudo. Afinal, somos amorfos, não estamos aprisionados a conceito algum.
Com Ricardo, a frase "a primeira impressão é a que fica", não faz sentido algum, pois a cada encontro nos descobrimos outros.
Embora não o veja como um duende verde, quando ouço o verso "Like Peter Pan or Superman. You will come to save me", lembro-me dele. De certo modo, ele é o Peter Pan que umas duas vezes por ano vem me salvar. O Miguilim que vê tudo com olhar da inocência, o filósofo que enxerga além. O meu sobrinho que vê filmes cult comigo, conversa em "casinhas de metrô", sai correndo quando dá vontade e me chama de tia sem que eu veja problema algum nisso.
E não vejo problema nisso, porque meu sobrinho é um sonho. É um garoto lindo, inteligente e perfeito. Alguém que qualquer mulher gostaria de ter ao seu lado, porque tem todas as qualidades de um homem perfeito. Quando falo dele para alguém, meus amigos já dizem logo que ele só pode ser gay, porque não pode existir um rapaz romântico, bonito, inteligente, culto e que gosta de arte. Não há homem que consiga perceber a importância de um entrelaçar de mãos. Mas há e está, eu espero, chegando a São PAulo em poucos dias...
Li um poema hoje e achei que traduzia bem os nossos papos. Ele irá entender, embora possa parecer uma declaração. Mas se parecer uma declaração, não tem importância, pois eu "acho que estou sempre me declarando pra ele..."
Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.
A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.
Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.
Fernando Pessoa

