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sábado, junho 07, 2003

 
Minha filha

Quero falar da minha filha. Quero falar com a minha filha. Na realidade, queria é estar sentada em algum lugar ao seu lado, olhando-a fixamente e conversando sobre tudo.
Minha filha é escorregadia, foge como o papaléguas, tão rápido que a maioria nem percebe que está fugindo. Mas eu sou uma mãe chata e reparo em tudo, reparo em seus detalhes mais imperceptíveis. Posso até sentir se algo aconteceu, mesmo ela estando há alguns milhares de Kms de mim.
Como é doce minha filhota, como é áspera, ao mesmo tempo é tão menina e tão adulta. Ela às vezes se diz "Macabéa", deixa-me feliz ao comparar-se a uma personagem da minha tão querida Clarice Lispector, contudo, não a acho Macabéa. Pra usar Clarice, talvez ela fosse a barata da GH. Vocês podem achar estranho eu estar comparando alguém que amo tanto a uma barata, porém, não estou sendo depreciativa na comparação. Fabi é assim, fica olhando pra gente e nos causa alucinações. Incomoda, parece estar ali, mas não está. Parece não estar, mas está.
Fabi é uma pessoa que veio pra incomodar, mas ainda não percebeu isso. Não entendeu que pode, como ninguém, incomodar quando quer. Pode mudar a concepção de mundo de quem quer seja. Desde de uma criança de 2 anos a dois "marmanjos" como eu e o Márcio.
Se eu fosse Werther e escrevesse cartas sobre meus sentimentos, certamente, Fabiana seria meu destinatário. Se eu fosse Marco Polo, Fabiana seria Kubla Khan. Eu conto para Fabiana tudo que vivi, estórias sobre minha vida, sobre minhas burradas e minhas bebedeiras e é como se ela anotasse tudo, lembrasse de tudo e vivesse, muito mais que eu, todas as minhas estórias. Fabi aos seus 18 anos, quase 19, viveu meus 26 anos. Sabe e lembra de cada detalhe. Até as minhas frases jogadas, ela lembra, poderia fazer um livro de citações minhas.
Minha doce menina não demonstra muita empolgação quando mando algum texto meu, mas depois fico sabendo que todas as suas amigas do colégio já leram. (Fico pensando que se os editores soubessem disso, talvez publicassem os meus escritos...).Dou esse exemplo, porque nos sentimentos ela é assim: não demonstra muita empolgação, não consegue falar o quanto ama a gente, com exceção do Márcio que ela faz qüestão de ressaltar seu amor por ele, mas eu nem tenho mais ciúmes. Contudo, aos poucos você vai percebendo o quanto é importante na vida dessa menina, o quanto ela gosta de você, apesar de achar que você é um ator contratado pelo Terra.
Queria que o tempo voltasse e eu a encontrasse novamente, na mesma estação de metrô. Como sinto falta daquele abraço carinhoso, do jeitinho que ela disse: "Quando vi uma moça olhando pra tudo quanto é lado, pensei, é ela!"
Tinha sido um dia terrível. O dia inteiro no Hospital pra receber uma notícia ruim. O dia inteiro ligando pra casa da tia dela para tentar esquecer da minha vida um pouco. Fui ao seu encontro meio que de improviso. Falei para o meu tio: "Me deixa no metrô." - olhei para minha mãe e com os olhos cheios de lágrimas, disse: "Desculpa, tá difícil ser filha hoje, tá insuportável ser Niti, preciso ser mãe um pouco, preciso ser Luar.".
Atravessei a rua sem olhar para os lados, entrei no metrô sem perceber se era o correto. Cheguei à estação combinada sem me dar conta do que estava fazendo, do que iria acontecer, do que deveria falar...
Na hora em que eu vi uma garotinha magra, de óculos, sorriso de criança, tudo que eu sentia mudou. Senti como se eu de Luar passasse a estrela e desse a luz. Sim, eu fui mãe numa estação de metrô. Pari uma garota de 18 anos, mais alta que eu, mas que para mim era um bebê. Um bebê que eu deveria proteger desse mundo mau e dessa cidade opressora. Deveria mostrar-lhe apenas as coisas boas da cidade opressora, mostrar-lhe que havia beleza nas coisas mais estranhas. Beleza em um boteco da Augusta, traduzida na simpatia de um garçon. Beleza num prédio que parece um ralador de queijo, mas que tem uma gibiteca. Beleza nos devaneios de uma paulistana triste, de olhos tristes e vida complicada. Beleza nos detalhes.
Então, deixo um poema da Cecília Meireles, feito a Mário de Andrade que poderia ter sido feito por mim para a Fabiana. Para mostrar-lhe a beleza que ela é, "mas não sabe, porque não me escuta."

SEGUNDO MOTIVO DA ROSA

Por mais que te celebre, não me escutas,
embora em forma e nácar te assemelhes
à concha soante, à musical orelha
que grava o mar nas íntimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
sem eco de cisternas ou de grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
oferece às vespas e às abelhas.

E a quem te adora, ò surda e silenciosa,
e cega e bela e interminável rosa,
que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrelas brilhas, presa
a meu sonho, insensível à beleza
que és e não sabes, porque não me escutas...









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