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domingo, maio 18, 2003

 
Meu Genro

Queria falar sobre o Márcio. Queria falar com o Márcio. Na realidade, gostaria de sentar numa mesa de um bar qualquer ao seu lado, bater um papo longo com meu genro.
O Márcio foi uma dessas pessoas que vc não gosta logo de cara. Acha que nunca vai se dar bem com ele, e até desiste de tentar. Também tinha o problema báscio do ciúme, afinal, a Fabi vivia falando: Eu AMO O MÁRCIO, e uma "mãe" se incomoda com o fato da filha amar mais alguém, além dela...
E sei que a recíproca era a mesma. Ele também devia achar um absurdo a Fabi me chamar de mãe, afinal, chamar alguém de mãe é dar uma importância enorme à pessoa, ainda mais uma pessoa com quem ele não tinha muita afinidade.
Mas depois, fui "descobrindo" o Márcio, percebendo seus detalhes, adquirindo uma afinidade tão grande com ele que hoje é como se eu o conhecesse há anos. Amigos de infância, com a mesma história de vida. A mesma dificuldade em estudar, o mesmo martírio de não sentir-se parte de nada. Vivemos o grande de dilema de não estar nem lá, nem cá.
Eu, uma "mina" da periferia de São Paulo, ele, um carioca da Baixada. Mas somos isso? Fazemos parte desse mundo?
Eu, uma "intelectual" da área de Humanas estudante da USP, ele, um "Mestre" em Química pela Federal do Rio (é a federal ou a estudal? não sei). Mas somos isso?E desse mundo, será que fazemos parte?
Acho que fazemos parte do trem que nos leva de um lado para o outro, que nos liga a mundos tão diferentes e tínhamos (temos), uma vantagem a mais, podíamos ( podemos), ver o mundo além das paredes de uma Universidade, além dos morros das favelas que nos cercam, além dos prédios dos Jardins, dos calçadões da Zona Sul, além de tudo. Fazemos parte de um grupo que têm o poder de fazer parte de qualquer lugar e ao mesmo tempo sentir-se à parte de todos eles. Não sei dizer se isso é bom, só sei dizer que a cada dia, sinto-me mais presente no mundo do Márcio e ele mais no meu, e por isso, vou parafrasear as palavras de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, para explicitar o por quê da minha ansiedade em vê-lo pessoalmente:

Creio nas afinidades eletivas. Sou tua irmã desde uma nunca esquecida tarde de domingo, em que pelo MSN Messenger recitei alguns poemas meus e você, influenciado pelos versos, me disse que entendia o que eu sentia, porque também viveu a mesma situação. Quando a Fabi disse que viria pra São Paulo, meio que exigi sua presença, não porque tivesse curiosidade de te conhecer fisicamente. Foi para um reconhecimento. "Emprego a palavra com a sutileza dos poetas japoneses nos seus haicais. Com toda as significações e associações que ela desperta."

Espero reconhecê-lo em breve e poder dizer como Mário que "esse reconhecimento não cessou de aumentar, florir, frutificar". Mas já posso dizer, desde já, que: "Hoje é, e não se ofenderás com a metáfora, é parte minha."

Luar.






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