sábado, março 08, 2003
Minha vida em detalhes
Podem desistir, não vou contar detalhes sórdidos, muito menos entrar em detalhes sobre tórridas paixões e orgias sexuais de quatro semanas ininterruptas. Mesmo por quê eu não teria o que contar.
Na verdade resolvi escrever porque minha cabeça vai explodir junto com meus órgãos se não o fizer. Necessito usar, hoje, minha caixinha de boas lembranças, para não tentar sair no meio do filme que estou assistindo.
No ano passado, eu mantinha um blog que vocês em algum momento, ou vários momentos, liam. O último post que escrevi foi sobre minhas tentativas de publicar meus escritos e de obter respostas do tipo: "é bom, mas não vende". Minha carreira de escritora nem havia começado e eu já me sentia frustrada por saber que ninguém iria gostar do que eu escrevo, mesmo sendo de boa qualidade, ou não, já diria Walter Franco - Ei, não é Caetano não? - É também, mas na verdade é uma música do Walter Franco e tal...
Nessa frase todos os meus medos, afinal, se não vende é porque não é bom, mas segundo eles era bom, mas se era bom, por que não vende? Aí, entramos no: "Tostines é fresquinho porque vende mais, ou vende mais porque é fresquinho"? Bom, ao menos Tostines vende, eu não... Isso também acaba com uma carreira de prostituta, e como as que eu conheci me diziam que foi a única coisa que elas conseguiram fazer, se não sobrar mais nada pra mim, eu estou ferrada, porque nem isso vai rolar, afinal eu não vendo.
Depois de escrever esse post, acabei com o blog, não escrevi mais poemas, larguei meu romance e meus contos e a única coisa que escrevia era uma estória, mesmo assim periodicamente, com o Jô, que me deu de presente uma personagem interessante.
Um belo dia, vou abrir meus e-mails e encontro um do Davi. Lembram do Davi? O insensível, implicante e conhecedor enciclopédico do chat de cinema do Terra? Aquele que a Fabi e o sobrinho tinham medo? Pois é, esse cara me deu uma demonstração de apoio que nenhum dos meus amigos mais próximos deram.
Esse episódio me fez pensar em como da onde você menos espera é que vêm os detalhes que mais podem fazê-lo sentir-se melhor. Davi está guardado na minha caixinha de boas lembranças, um dia quero poder agradecer pessoalmente, de preferência no lançamento de um livro meu ou na pré-estréia de um filme seu.
É estranho, como as pessoas em que mais você confia, às vezes não sentem o que você precisa realmente e de repente, você sente que não faz parte da vida delas, ou que elas só enxergam em você o que elas gostariam e outras que você nem nota, ou que trocou apenas duas palavras, conseguem pereceber em você toda sua angústia.
As máscaras que usamos diariamente ajudam nessa falsa interpretação das pessoas. E, talvez por isso, com os desconhecidos somos tão "nós", deixando-os perceber todo nosso despreparo. Na maioria das vezes consigo que essa ou aquela pessoa me veja da maneira que eu quero ser vista por ela, contudo, essa sensação me incomoda, pois não me reconheço mais no olhar dela. Penso, "essa não sou eu" e me pergunto: "Quem é essa a quem ele(a) diz ser tão sua amiga?" ou "Quem é essa mulher com quem ele (a) está falando"? - Deixo claro que não estou falando aqui, sobre as "mulheres que as pessoas me fazem descobrir", como no post "Tantas Mulheres". Estou falando, no fato de não reconhecer-me em algumas pessoas. De não saber de quem ou com quem as pessoas com que convivo falam. É estranho sentir-me querida por alguém que quando fala de mim eu não me reconheço. É mais estranho sentir-me odiada por alguém que fala de mim coisas que eu não sou. É como se amassem e odiassem uma Nice que eu nunca fui apresentada.
E atitudes como a do Davi mostram-me que sou muito mais sincera com "desconhecidos" do que com pessoas que me cercam.
Isso é tão surreal e angustiante...
Algum Babalorixá poderia confiar-me o segredo da erva do esquecimento utilizada para fazer Oxossi esquecer que havia passado a noite com o guardião da floresta? Acho que se tomasse tal erva todos os dias, não me angustiaria tanto em não me reconhecer, em não ser apresentada à essas mulhes que são amadas e odiadas e que sem a minha permissão utilizam meu nome. Assim, apresentariam-me quem fui, reconheceria-me dessa forma e no dia seguinte reconheceria-me em outra, sem a angústia permanente de fazer escolhas.
Acho que Heráclito tomou a erva quando fez a teoria do Devir, sobrinho.
Dia da Mulher
Não farei homenagem alguma, pois acho que é um dia preconceituoso, que faz lembrar uma data onde mulheres foram mortas graças à exploração trabalhista. Não deveria existir dia da mulher, não existe dia do homem, não é mesmo?
Contudo, o dia da mulher me traz duas recordações maravilhosas:
A primeira e única vez que ganhei flores de um homem, foi no dia da mulher. Um arranjo lindo, com um cartão mais lindo ainda!
Uma vez, passeando no Trianon, um garoto de programa me deu os parabéns pelo dia da mulher e eu nem lembrava da data. Foi a primeira vez que me dei conta que eu era uma mulher...
Bom, como nesse blog as duas únicas mulheres somos eu e minha filha, resolvi utilizar a data para algumas exigências:
*Queremos ser paparicadas o tempo inteiro!!!
*Flores serão bem-vindas! (No caso da Fabi, Chocolates, por favor).
*Elogios sobre nossos atributos físicos seriam legais. Podem começando a ensaiar no espelho frases do tipo: "Você é linda", "Como você está bonita", etc...
Por enquanto é só. Tenho que aproveitar, afinal, só nesse blog eu me cerco mais de homens do que de mulheres e com uma vantagem: são todos heterossexuais! Depois que entrei na faculdade, heterossexuais são raros, acho que há algo na comida do "bandejão" que transforma aquele povo em bissexuais e homossexuais... Vou te contar! Nada contra, claro, mas é que o mercado fica sem opções pra mim, né?
quinta-feira, março 06, 2003
Corra, Nice! Corra!
"Se o filme está ruim, a gente fecha os olhos e imagina outro final"
(Jô)
Acordei. Voz do Chico Buarque cantando "Carolina". Ouvi minha mãe gritando:
- Corra, Nice! Corra!
- Hã? Correr?
- Vai buscar o remédio, precisamos do remédio. Só ele pode curar. Mas a farmácia está fechada, vai ter que ir lá na Avenida. Na 24 horas.
- Ué, manda ele ir de carro...
- Claro que não, podemos precisar do carro se você não chegar em tempo. Pode piorar. Corre! Anda!
Saí correndo, corri por 15 minutos como uma louca. Mas fumo demais, estava sem fôlego. São 28 cigarros por dia...
- Que precisão! Vinte e oito contados...
Essa voz! Ouço essa voz desde os dois anos...
- É, estou fazendo um diário tipo Bridget Jones. Depois de passar o ano novo bebendo como uma louca e ouvindo Creep, resolvi fazer um diário. Ao menos Radiohead não é tão degradante quanto Celine Dion...
- Mas também não tem um Hugh Grant na sua vida, né?
- É... você tem razão...
Continuei correndo, correndo e parando. Cheguei à farmácia, estava fechando. Tentei impedir e coloquei minhas mãos na porta. Cortei os pulsos.
Voltei pra casa, jorrava sangue. Não havia ninguém, apenas o meu cachorro que ria da minha cara.
Fade.
Acordei. Voz do Chico Buarque cantando "Carolina". Ouvi minha mãe gritando:
- Corra, Nice! Corra!
- Hã? Correr?
- Vai buscar o remédio, precisamos do remédio. Mas a farmácia está fechada, vai ter que ir lá na Avenida. Na 24 horas.
- Ué, manda ele ir de carro...
- Claro que não, podemos precisar do carro se você não chegar em tempo. Pode piorar. Corre! Anda!
Saí correndo, mas dessa vez, achei melhor ir de bicicleta. Pedalava como uma desesperada, quando percebi que a bicicleta estava sem freio.
- Claro que estava sem freio, se não estivesse, não seria sua bicicleta.
- Você de novo...
- Claro, estou sempre com você, desde quando tinha dois anos e chorava na janela.
- É, está certa.
- Sempre estou certa. Sou a única coisa certa da vida.
Continuei pedalando como desesperada. Um carro se aproximou. Capotei, e caí. Fui levada para dentro do carro. Tinha uma sirene e ao meu lado uma caixa de madeira que me cutucava. Perguntei o que era e ele disse que era um caixão. Fiquei assustada e ele me explicou que era o carro da Funerária. Ouço gargalhadas de dentro do caixão:
- Nem assim você consegue, né?
-Tinha que ser você.
-Você me chamou, ué.
Joguei-me do carro. Voltei pra casa, um machucado no tornozelo direito. Ninguém em casa, apenas o meu cachorro que tirava o maior sarro da minha cara.
Fade.
Acordei. Voz do Chico Buarque cantando "Carolina". Ouvi minha mãe gritando:
- Corra, Nice! Corra!
- Hã? Correr?
- Vai buscar o remédio, precisamos do remédio. Mas a farmácia está fechada, vai ter que ir lá na Avenida. Na 24 horas.
- Ué, manda ele ir de carro...
- Claro que não, podemos precisar do carro se você não chegar em tempo. Pode piorar. Corre! Anda!
Saí. Chovia em São Paulo. As ruas alagadas, comecei a nadar.
- Mas você não sabe nadar!
- É, por isso me afoguei...
- Mas te salvaram, olha lá...
Voltei pra casa. Toda molhada. Ninguém em casa, apenas o meu cachorro que não parava de rir.
Fade.
Acordei. Voz do Chico Buarque cantando "Carolina". Ouvi minha mãe gritando:
- Corra, Nice! Corra!
- Hã? Correr?
- Vai buscar o remédio, precisamos do remédio. Mas a farmácia está fechada, vai ter que ir lá na Avenida. Na 24 horas.
- Ué, manda ele ir de carro...
- Claro que não, podemos precisar do carro se você não chegar em tempo. Pode piorar. Corre! Anda!
Saí correndo. Descolei uma carona com meu vizinho. Cheguei na farmácia e estava aberta. Comprei o remédio.
Voltei pra casa e não havia ninguém, nem o meu cachorro. Tomei todos os remédios.
- Não tem jeito. Não acha que tá na hora de parar de correr?
- Correr é bom...
- Você fuma demais pra isso...Outra coisa que deveria parar.
- Mas é que sem eles vou me sentir tão sozinha.
- Você já está sozinha. Afasta todo mundo.
- Estou grogue...
- Claro, tomou tanta bola... e nem barato dá... Vai é te fazer dormir. Agora dorme aí que eu preciso ir.
- Você volta?
- Sinto dizer-lhe que sim. Por isso pára de correr pra mim e de si mesma. É melhor tentar mudar o SEU filme.
Adormeci.
Fade.
Acordei. Voz de Chico Buarque cantando "Até o fim". Ninguém em casa, apenas um bilhete na geladeira:
Nice,
Fomos à praia. Voltaremos em quatro dias.
Seu pai está bravo, a conta telefônica chegou. Vai se preparando.
Olhei na folhinha e pela data do bilhete já havia passado os quatros dias. A porta se abriu. Todos entrando queimados, sorridentes e de óculos escuros. Inclusive meu cachorro. Ele sorria cinicamente, canto de boca. Quando todos entraram, fechei a porta e o ouvi dizer:
- Pega, Nice! Pega!

