sábado, março 01, 2003
A Fabi disse que é muito grande, por isso vou colocar umas partes aqui, para vocês se animarem a ler.
Como eu disse, é um poema dramático, então, vou colocar falas... Uma do Pierrot que um dia quis recitar para uma pessoa e a outra que a Fabi escolheu, pq quando se animou a ler, achou maravilhoso...
PIERROT
Tive medo, Arlequim! Vendo-os, num paroxismo
eu tinha a sensação de estar sobre um abismo.
Não sei porque o olhar dessa estranha criatura
era cheio de horror...e cheio de doçura!
Eu desejava arder nessas chamas inquietas...
Mais Pierrot falando... Genética Virtual é fogo...
PIERROT
Não! Não era um olhar! Ardia nessa chama
toda a angústia interior do meu peito que te ama
Nosso corpo é tal qual uma torre fechada
onde sonha , em seu bojo, uma alma encarcerada.
Mas se o corpo é essa torre em carne e sangue erguida,
O olhar é uma janela aberta para a vida,
e, na noite de cisma, enevoada e calma,
na janela do olhar se debruça nossa alma
Quem é você?
"Diga-me qual máscara usou no carnaval e direi quem é"
(Anatol Rosenfeld)
A máscara que eu usarei?
De Pierrot!!!
E falando em máscaras, carnaval e Pierrot, eu sempre lembro de um poema dramática do Menotti Del Picchia, chamado Máscaras. É muito legal! Leiam!!!
quinta-feira, fevereiro 27, 2003
Também tenho medo de não ser compreendida:
O que eu quis dizer com o post anterior é que, mesmo podendo esclarecer as coisas, o que as pessoas pensam de mim não é relevante e perderia toda a graça se eu soubesse realmente o que o garçon quis dizer com aquele sorriso cínico nos lábios. O legal é imaginar o que pode ser, o por quê da confusão e desta forma perceber que um gesto qualquer pode fazer as pessoas terem inúmeras representações. Assim como o meu amigo teve ao fazer o comentário.
Contudo, há pessoas que nos trazem a necessidade de existir de forma plena nelas. Como meu lado emocional existiu em um amigo (aquele que só era tímido, sobrinho), quando ele me disse: "Romântica demais para relacionamentos e cética demais pra tentar um". Ou no Vasco, quando ao me ligar no meu aniversário disse: "Você escreve jorrando sangue para todos os lados, mas ao telefone é tão doce e divertida". Ou mesmo no meu marinheiro quando, citando um escritor que não me lembro agora, disse: "Existem pessoas que vivem em desespero silencioso e você é uma delas".
Essas pessoas me fazem ter a sensação de existência plena e não apenas ser olhada. Elas fazem a diferença, como todos que participam deste blog.
Agora, as outras pessoas com as quais tive breves contatos podem achar o que quiserem, como disse o sobrinho, podem me convencer ou eu posso prová-las do contrário, pois posso ser tudo o que elas quiserem que eu seja para elas, depende da vontade delas e, claro, da minha, para essa existência. Porém, há pessoas que nos incomodam ao sentirmos que só somos olhadas por elas, que não existimos e, principalmente, necessitamos saber se existimos nelas para sermos compreendidos e que elas achem possível um conto de fadas...
Os olhos dos outros.
Ao sair do cinema, reencontrei um amigo que conheci pela net. Aliás, a primeira pessoa que conheci na net. Estava na Av. Paulista e a gente decidiu tomar uma cerveja. Ele sugeriu o "Prainha". Adorei a idéia, porque da última vez que estive lá conheci um garoto de 9 anos por quem fiquei encantada. Sensível, inteligente, meigo. Eu estava com um rapaz e o convidamos para sentar com a gente. O garoto era tão surpreendente que ao ser perguntado sobre o que ele gostaria de comer, ele disse: "Ovo de codorna"! - Eu e o rapaz até comentamos: "que coisa mas de tiozão de boteco".
Nunca esqueci o garoto, guardo a rosa que ele me fez com guardanapos até hoje, e separei uns gibis da Mônica (ele disse que gostava) e o livro infantil da Clarice "A mulher que matou os peixes". Contudo, com a vida corrida, final de semestre, não tive tempo de voltar lá. (Isso foi em dezembro do ano passado).
Como o rapaz que estava comigo demorou a chegar, eu fiz amizade com o garçon que, hoje, me reconheceu. Então resolvi perguntar sobre o garoto, mas ele entendeu que eu perguntava sobre o rapaz e deu um sorriso estranho e começou a falar algo que eu logo cortei, pq percebi que ele não havia entendido de quem eu estava falando. Assunto esclarecido e resposta obtida, comecei a rir...
Eu e o meu amigo de hoje, estávamos conversando sobre as representações de nós mesmos que as outras pessoas fazem. Como existimos nelas. E, depois que o garçon se foi, ele comentou:
- O garçon sorriu como se quisesse dizer que vc é uma corna e o cara por quem vc suspostamente perguntava tinha vindo aqui com outra.
Não importa se o garçon pensa isso realmente, mesmo porque o rapaz que estava comigo o dia em que o conheci não era nada meu, o que me importa é perceber como eu existo para ele, que de certa forma eu existo nele. Eu poderia tê-lo deixado falar sobre o rapaz e ter certeza de que ele realmente quis dizer o que o meu amigo percebeu. Só que foi melhor tê-lo cortado, pois só nesse episódio tive a prova concreta das milhares representações que fazem de mim e, principalmente, que a sensação de inexistência para as pessoas é a das mais angustiantes. É como no livro da Simone de Beauvoir que estou lendo, e a protagonista se angustia pelo fato de não existir para um homem que a olhava, mas não demonstrava expressão alguma.
Será que existo para o garoto que me deu a rosa como ele ainda existe em mim e como eu ainda existia para o Garçon?
Como será que eu me veria se olhasse com os olhos do garçon? Ou com os olhos do Abel (o amigo que encontrei hoje)? Como existo para o Eduardo? Existo para o Eduardo? Como seria me olhar com o olhar de cada pessoa, será que eu existiria para mim? Na realidade eu queria saber mesmo se ainda existo na música do piano que insiste tocar na minha cabeça...
E então, percebo que não há sensação mais cruel do que ser olhada, mas não existir para a pessoa. Saber que o outro te vê, mas que você não existe nele. O olhar do garçon, ao menos, demonstrou que de alguma forma eu existia nele, não importou-me qual forma, porque ele não faz parte da minha vida, contudo, para as pessoas que fazem, eu gostaria de saber como e se eu existo nelas.
Fique tranqüila, vai dar tudo errado...
Fui assistir "La Strada" do Fellini. O título é uma frase do filme. Conta a vida de uma mulher que é vendida para um artista mambembe. Tão sublime, sutil e lírico como só Fellini sabe ser... Como só Fellini sabe tratar da condição humana, indo do grotesco ao sutil, da tristeza à alegria, do cruel ao fantástico. Mostrando assim que somos humanos, somos grotescos, mas somos maravilhosos e fantásticos... Podemos nos redimir e, principalmente, podemos nos encantar com coisas simples como uma pedra, uma lembrança, uma música... E que tudo é útil, pq se algo for inútil, tudo será também, até as estrelas.
Saí do cinema emocionada. Sentindo-me sublime e tranqüila, lembrando da frase: "Fique tranqüila, tudo irá dar errado." E lembrando de outra frase dita por um grande amigo: "Se o filme está ruim, a gente fecha os olhos e imagina outro final" - e é exatamente por isso que somos fantásticos, porque a gente pensa e o protagonista do filme só se redime quando começa a pensar...
E ao final de uma noite, embora agradável, de desespero silencioso, nada como ouvir João Gilberto que canta a tristeza baixinho para não incomodar os pensamentos que insistem em gritar.
terça-feira, fevereiro 25, 2003
Um detalhe a mais...
"Não há vinho tão inebriante quanto o champanhe cintilante da possibilidade."
(Jovany Sales Rey)
Esses versos do livro de poemas do Jô, nunca saíram da minha cabeça. O detalhe a mais que falta na vida de cada um. O (ou a) Champanhe para as comemorações diárias de estar e sentir-se vivo por enxergar no outro uma simples possibilidade.
Não, não é o deixar o outro existir em mim que me falta. É, sobretudo, enxergar no outro uma possibilidade e embriagar-me nela.
Delirar e suspirar reticências... reticências possíveis. Quero e teimo enxergar o impossível, por ter medo de perder o controle embriagando-me nas inúmeras possibilidades que me aparecem, mesmo que esteja atravessando a rua.
Possibilidades que me façam seguir um outro caminho que não o de costume. Um caminho ainda não traçado, um caminho inexistente, mas que poderá existir, desde que eu enxergue a possibilidade para que ele exista. Fazê-lo possível de existência.
E, desta forma, tudo que senti ontem, o turbilhão de lembranças passadas e a vontade de reviver um passado impossível no presente, fez-me ver que está na hora de aprender a sair de casa aos domingos à tarde.
Não posso dizer que estou melhor. Ainda não. O que houve derrubou plataformas construídas ao longo de 5 anos. Derrubou certezas e encheu-me de dúvidas e pensamentos abstratos. Contudo, ao contrário de ontem, hoje vejo uma pequena possibilidade em algum lugar indefinido e incerto. Uma possibilidade nebulosa. Um champanhe pedido em um bar lotado, com mais de 15 milhões de pessoas, e certamente o garçon irá demorar para trazê-lo, mas irá trazer.
(Fabi, esse post foi pra tranqüilizá-la. Sei que ficou preocupada com a "surtada" de domingo, mas fique certa, sua mãe agüenta, sempre agüentou. Dá tudo errado e aqui estou eu, sem saber pra onde ir, mas indo até o fim. Como disse Clarice no romance "Perto de um coração selvagem", que você tem que ler para saber como essa mulher mudou minha vida: "Eu preciso me cumprir".
Beijo, filhota, te amo MUITO.)
domingo, fevereiro 23, 2003
Poema
Sei que as pessoas preferem ler receitas de bolo a poemas, sei também que eu encho saco recitando poemas o tempo inteiro, mas eu tô arrasada hoje e tudo na minha vida vira poema. E quem acha que poesia se faz com sentimentos, engana-se, Marlamè já disse, Poesia se faz com PALAVRAS, então as leiam como palavras que querem dizer algo ou não querem dizer nada.
Quis matar-te em mim
Vivi momentos em que não estavas por perto
Deixei-me ir como um barco à vela
E o vento trouxe a tua presença
Tua música ecoando
E de volta meu único assunto.
Agora resta-me calar.
Não há por quê dizer-te,
nem ouvir-te.
O Silêncio já nos disse tudo.
Para quem não entendeu o post anterior
ATRÁS DA PORTA
Francis Hime - Chico Buarque
Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei
Me debrucei
Sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito (Nos teus pelos)*
Teu pijama
Nos teus pés
Ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que inda sou tua
Só pra provar que inda sou tua...
Então ele veio e eu saí de trás da porta...
Não, não houve diálogo algum. Não disse a ele que fiquei 5 anos "Atrás da Porta". Liguei para o outro, para o meu marinheiro que beijou-me e foi-se, deixou sua promessa e não voltou nunca mais. Liguei porque sempre ligo quando preciso dele. Porque seremos sempre assim, "nem desistir, nem tentar", mas nos fazemos bem. Liguei, principalmente, porque ele é a fuga de um piano que insiste em tocar uma única nota na minha cabeça.
Hoje, sinto uma quebra dentro de mim. Dói sentir-me só, dói mais ainda ter a certeza de que meu coração (ou cérebro, como queiram) está atrelado a um sonho impossível. Embora, o "marinheiro" tenha escrito que no sonho tudo é possível, no meu, o João é impossível, o piano só toca uma nota e, novamente, o que resta são as pedras de São Paulo e algumas estrelas que enfrentam a poluição para fazer-me voltar a sonhar... Sonhos Impossíveis.

