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Somos seis amigos de estados diferentes, mantemos um blog para nos comunicarmos e expressarmos nossos pensamentos.

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sábado, fevereiro 08, 2003

 
Sessão Extraordinária

Sei que disse que não transformaria mais os meus detalhes em textos, ao menos por enquanto. Contudo, estou há horas na frente desse computador, fazendo meu trabalho. Escrevendo metade em italiano, metade em português. Lendo textos em italiano, português e penando muito para ler em francês. Minha sorte é que tenho uma melhor amiga muito culta que fala Francês fluente, além de ser linda, maravilhosa, gostosa e beijar bem pra caramba.Então, precisava escrever algo só em português. Ler as letrinhas juntas com a nossa sintaxe. Falando em sintaxe, preciso estudar para minha prova que será nessa próxima semana.
Hoje foi um dia mágico, cheio de detalhes mágicos, encatamentos e constatações.

Detalhes de Guimarães Rosa e o Olhar de Miguilim

Acordei às 7 horas da manhã. Só consegui dormir às 6h. Zumbótica e sem senso de ridículo, como de costume, tomei meu banho e vesti a primeira roupa que vi na frente. Um Jeans rasgado no joelho que só o rasgo percebi quando minha mãe chamou a atenção. E um top que voltou a servir depois dos 6 kgs perdidos.
Tinha uma aula sobre Guimarães Rosa que não poderia perder. E realmente foi maravilhosa. Começou às 9h e terminou ao meio dia, dando aquela sensação de bem estar que provavelmente durará até a Segunda- feira.
O professor analisou a novela "O Recado do Morro". Seu início tem a seguinte frase: "SEM QUE BEM SE SAIBA", e fala de uma viagem pelo Morro da Garça numa estrada em que seu ocre é um S, "que começa a grande frase". Segundo meu professor, pode-se avistar tal morro quando você vai em direção à Diamantina, no Norte de Minas.
O ocre da estrada é um S que começa a grande frase. Cada estrada por onde caminho, começa uma grande frase. Ao sair da aula, fui caminhando pra casa. Sim, moro longe, muito longe, mas andei um bom "bocado de chão" e fui pensando em Guimarães e suas novelas, romances, contos e poesias. Foi exibido o primeiro rascunho de um livro de poemas do Guimarães, tinha a assinatura dele e até correções feitas a lápis. Letra de professora de português e não de médico. (Pra quem não sabe, ele era médico).
Durante o caminho da volta pra casa, já passado a Waldemar Ferreira e iniciado a Francisco Morato encontei um menino. Dois anos de idade, com pressa de ir pra casa. A infância era um sofrimento. Ele queria ir, mas não podia, não era "grande" o suficiente para ter seus desejos atendidos. Não era grande o suficiente para ser ouvido. Não era grande o suficiente para olharem para ele com olhar de Miguilim. Olhar de igual para igual. Entender suas aflições de menino e não simplemente impôr a vontade a ele, achando que se sabe o que é melhor. De repente, o menino olha para o céu e vê a lua. A lua do meio dia. O que ele chamou de lua. Ele apontava e dizia: "Olha a lua!" . Os adultos em volta diziam, ora: "que gracinha!", ora, "Não é a lua, é o sol". E o guri não parava de olhar pra cima, mas agora não dizia mais nada, só olhava pro céu com seu olhar de Miguilim.
E seu olhar de Miguilim ficou nos meus olhos. O ocre da minha estrada que começava a grande frase, ficou na minha mente. Continuei a andar pelo início da minha grande frase, com a angústia da certeza de que ela jamais seria completada, pois sempre teria alguém a me dizer: "que gracinha!" ou "não é a lua, é o sol".






sexta-feira, fevereiro 07, 2003

 
Detalhes da Waldemar Ferreira

A Waldemar Ferreira é a rua que dá acesso à Universidade, ao menos, pelo caminho que eu faço. Como moro fora de mão, tenho que pegar dois ônibus ou andar pela Waldemar Ferreira. É lá que fica o famoso, ou não tão famoso assim, "PUTUSP". As prostitutas e os travestis se dividem pelas esquinas da rua.
Hoje resolvi andar. Aproveitei que o trânsito estava insuportável graças à tempestade que caiu na cidade. Foi uma idéia infeliz, pois a Alvarenga havia alagado.
Todos os dias reparo nos detalhes da Waldemar. Mas hoje, um travesti me chamou mais a atenção do que a rua. "Ela" ao me ver, levantou sua blusa. Eu, numa reação impulsiva disse:
- Ô minha linda, eu também tenho. Aliás, até demais.
Fiquei com medo da sua reação, mas só pensei que pudesse haver alguma reação depois que falei. Ao contrário do que eu imaginava, "ela" sorriu.
Olhei com ternura e fui retribuída com o mesmo olhar. Não falamos mais nada. Ouvimos nossos silêncios. Silêncio cansado. O portão estava próximo. Fiquei parada. Pequei o maço de cigarros, ofereci. Foi aceito. Acendemos o cigarro e eu entrei. Quando estava entrando, ouvi seu grito:
- Menina, você é linda!
Virei, sorri e disse:
- Você também é.
E era realmente. Melhor que muita mulher siliconada que anda por aí.
Fiquei com a frase na cabeça. Um elogio que eu acreditei. Geralmente acredito só nas coisas ruins sobre mim. Acreditei por ter sido um elogio gratuito. Não precisava ser dito. Mas foi. E dito, talvez, no momento da minha vida em que mais me senti um lixo de pessoa. Precisava tê-lo ouvido. Precisava tê-la encontrado. Talvez nunca mais a veja, mas a Waldemar tornou-se a rua "dela", para mim. E é claro que meu anjo travesti virou poema.

*** Bom, vou me despedindo por aqui. Semana que vem provas, na outra recuperação, se eu não ficar em nenhuma matéria, talvez, eu vá viajar. Portanto, meus detalhes não se tornarão textos por um bom tempo.Mas eu quero ler os detalhes de vocês.





quinta-feira, fevereiro 06, 2003

 
Esperando alguém

Hoje jantei num restaurante da faculdade. É, não tava tão sem grana assim e deu pra escapar do bandejão. Tinha acabado de ver um filme do Almodòvar que tava passando por lá. Um dos primeiros dele, muito engraçado.
Bom, voltando ao jantar. Fui sozinha. Gosto de fazer algumas coisas sozinha que os outros dizem ser chato, como ir ao cinema, jantar em restaurantes, tomar um café em um "café" e ficar estudando ou lendo jornal. A única coisa que me recuso a fazer sozinha é beber. O dia que fizer isso, saio do bar e vou direto pro AA.
Estava lá, fiz meu prato, odeio self service, mas tudo bem, a comida a essa altura já não era o importante. O mais legal foi ficar observando as pessoas que também estavam sozinhas. Lembrei de uma conversa com o sobrinho, comentamos uma vez que é interessante perceber que essas pessoas agem como se estivessem esperando alguém.
Elas olhavam para a porta como se a qualquer momento fosse chegar quem esperavam, terminavam seu jantar e ninguém aparecia. Saíam com cara de quem tinha levado um bolo. Poderiam realmente estar esperando alguém, contudo, em um restaurante em que nos servimos sozinhos, as pessoas às vezes dividem mesas, faltam cadeiras e as perguntas:
"Posso me sentar aqui?" - ou - "Posso pegar a cadeira ou você está esperando alguém?" - geralmente são ouvidas e a resposta é quase sempre a mesma: "sim, pode", o que significa que não esperavam ninguém.
Então, já com a comida fria, comecei a rabiscar algumas hipóteses . É tão intrigante a reação de um paulistano, ou de alguém que mora em São Paulo, diante da solidão ou do fato de estarem sós.
1) Fazem de conta que esperam alguém para não admitirem pra si mesmos sua solidão;
2) Querem mostrar aos demais que não estão sozinhos, mas que a pessoa simplesmente não apareceu;
3) Talvez esperem realmente alguém, mas não alguém marcado, um alguém qualquer que os façam sentir melhor e por isso olham constantemente para porta. Quem sabe o "alguém" entra... e;
4) Esperam a si mesmos refletindo o desejo do outro.






terça-feira, fevereiro 04, 2003

 
teste2




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